domingo, 15 de outubro de 2017

Cidade da Praia da Victória, Ilha Terceira, Açores



Durante a nossa estadia de 5 anos na Ilha Terceira moramos alguns meses nas instalações militares da Marinha Portuguesa na Praia da Victória, estas instalações ficavam sobre a falésia por cima da chamada praia dos americanos, o mar era uma constante assim como a vista para o oceano Atlântico.
Durante esse período o mar continuou a desbastar a falésia por baixo e ao fim de algum tempo começou a haver pequenas derrocadas, cada vez a distância era menor entre a beira da falésia e o último edifício das instalações. Nós estávamos a morar no penúltimo edifício (visível na foto publicada), quando começou a ficar crítico chegou a ordem de retirar tudo o que pudesse ser removido e deixar só as paredes, entretanto mudamos para o primeiro edifício das instalações, visível na foto após as torres de vigia. Tal trabalho foi efectuado e uma noite houve um grande estrondo correspondendo à derrocada do edifício sobre a praia, os destroços foram pouco a pouco sendo absorvidos pelo mar não constituindo por isso barreira à contínua erosão.

PESCAS, na Praia da Victória o meu pai tinha como tarefa a fiscalização das pescas, acompanhei-o muitas vezes trazendo sempre peixes pequenos que os pescadores me iam oferecendo, adorava principalmente os vermelhos.

ENSINO BÁSICO, quando fomos para a Ilha Terceira ainda não estava em idade escolar, só no ano seguinte é que fazia 6 anos, devido às constantes mudanças não foi possível ingressar numa escola (o sistema não era flexível como agora). Enquanto sim e não a minha mãe é que me foi ensinando a ler, escrever, etc., na Praia da Victória fui pela primeira vez à escola com a idade de 8/9 anos (nasci em Fevereiro), foi pedida uma autorização ao Ministério da Educação (?) para que eu pudesse fazer a 1.ª, 2.ª e 3.ª classe num ano, assim de 3 em 3 meses fazia um exame para a passagem de classe, passei sempre e desta forma iria ser possível frequentar o último ano correspondente à 4.ª classe.
Foi necessário o meu pai regressar a Angra do Heroísmo para novas tarefas, assim passei os últimos meses a morar com a professora para poder frequentar as aulas e fazer os exames, assim todas as sextas-feiras apanhava a camioneta na Praia com destino a Angra, todos os domingos ao final da tarde apanhava a camioneta em Angra com destino à Praia.

TOURADAS À CORDA, apesar de assistir a inúmeras touradas à corda que ocorriam conforme as várias festas na ilha as que ocorriam na Praia da Victória eram as mais divertidas porque eram efectuadas na praia, assistia-se às frequentes fugas para o mar dos participantes muitas vezes perseguidos pelo touro mar adentro.

FOTO, a foto inicial que publico mostra parte das instalações da Marinha Portuguesa sem o último edifício entretanto caído.

A retirar tudo o que fosse possível remover de modo a ficar somente paredes.



























Foto dos trabalhos de remoção, da falésia e da distância entre a beira da falésia e edifício.

































[Nasceu na Praia da Victória em 1901, morreu em 1978]

Foi uma das figuras mais representativas da Literatura e da Cultura Portuguesas do século XX, pela qualidade literária da sua obra e pela influência do seu magistério universitário e da sua personalidade.

Poeta, contista, romancista, cronista, ensaísta, conferencista, colaborador assíduo de revistas e jornais, comunicador de rádio e televisão, foi Professor Catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa.

[Vitorino Nemésio (1901-1978)]

sábado, 14 de outubro de 2017

O Monte Brasil, Ilha Terceira, Açores


Durante a nossa estadia de 5 anos na Ilha Terceira moramos alguns meses nas instalações militares da Marinha Portuguesa no Monte Brasil que ficavam quase na ponta do monte do lado da baía de Angra. Era-mos os únicos civis para além do faroleiro a residir nessas instalações – Fortaleza São João Baptista. O mar era uma constante assim como a vista para o Ilhéu das Cabras, nas suas várias fases desde o amanhecer até ao pôr-do-sol, em dias limpos via-se a Ilha de S. Jorge e a Ilha do Pico.

BALEIAS, neste local privilegiado podemos observar dezenas ou centenas de vezes a partida para a pesca à baleia, começava tudo com uma sirene a tocar na cidade de Angra do Heroísmo, depois era ver os pescadores a fazerem-se ao mar, mais tarde e na maioria das vezes passava à nossa frente a baleia morta a ser rebocada contornando o Monte Brasil com destino a Porto Mateus. Embora fascinante poder assistir a toda a operação felizmente que esta prática foi proibida.

PESCARIAS, o meu pai chegava a casa e dizia “Dêem-me mais ou menos 20 minutos pois vou pescar o jantar”, passado algum tempo lá aparecia com uma bela garoupa. Ao mesmo tempo apanhavam-se umas lapas para fazer o arroz, mais uma refeição oferecida pela natureza.

CAGARROS, numa pescaria nocturna o meu pai ao lançar o aparelho a linha de pesca enrodilhou-se num cagarro que estava a voar provocando a sua queda com alguns ferimentos. Foi tratado na nossa casa, após uma estadia de 3 dias foi solto para retornar à sua actividade.

FAROL, todos os dias o farol existente na altura era ligado para mais um período nocturno, esta operação era manual e efectuada pelo faroleiro. Era um fascínio para nós porque acompanhávamos toda a sequência, ao fim de algum tempo já dominávamos e caso fosse necessário podíamos “substituir” o faroleiro. O faroleiro apesar de ter casa junto ao farol morava em Angra do Heroísmo, assim todos os dias fazia por duas vezes o trajecto a pé entre Angra e a ponta do Monte Brasil.

FOTO, a foto que publico mostra parte das instalações da Marinha Portuguesa assim como a casa do faroleiro, a traseira do farol e parte da muralha da fortaleza.

Foto tirada no farol do Monte Brasil, estou eu, irmão e mãe. Para além da vista sobre a baía na mesma encontra-se um navio de passageiros ao largo.


Monte Brasil
Extraído de imagem via satélite está assinalado o local onde ficavam as instalações, dá para se ficar com uma ideia acerca do trajecto a efectuar diariamente para se ir trabalhar, às compras, etc.
A partir da baía está assinalado o local onde ficavam as instalações







"Quando penso no mar, o mar regressa
A linha do horizonte é um fio de asas
E o corpo das águas é luar;

De puro esforço, as velas são memória
E o porto e as casas
Uma ruga de areia transitória."

[Poema "Correspondência ao Mar" de Vitorino Nemésio (1901-1978)]

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Eu e o mar



Nasci em Lisboa num local muito conhecido em São Sebastião da Pedreira. Parte da minha infância foi passada nos Açores concretamente na Ilha Terceira no período de 1960 a 1965, essa fase marcou-me muito (só muito mais tarde é que dei por isso), entre outros, passei a gostar imenso do mar – continua a ser um dos melhores calmantes para mim.
Para mim o mar tem algo de humano porque espelha as várias fases porque todos passamos: calmo, amigo, agitado, revolto, zangado, bravo, etc.
A foto inicial que publico reproduz um dia de tempestade com o mar muito bravo a “abraçar” o cais do porto de Angra do Heroísmo, para quem conhece o mesmo pode imaginar …

Recordação de pessoas simpáticas e amigas

Fomos de barco para os Açores, quando chegamos a Angra do Heroísmo na altura os barcos ficavam ancorados ao largo do porto e as pequenas embarcações locais é que transportavam os passageiros e a carga, por vezes com graves riscos de vida, nesse dia o tempo não estava muito bom e chegamos todos molhados (pai, mãe, eu e irmão mais novo) ao cais do porto. O meu pai tinha que se apresentar na capitania para receber instruções, ficamos ali à espera, passados uns minutos uma senhora veio ter connosco a convidar-nos para irmos para casa dela para mudar de roupa e descansar e para não nos preocuparmos que alguém avisaria o meu pai onde estávamos. Após alguma insistência lá fomos para casa da senhora, tomamos banho, mudamos de roupa e comemos. Passado uma hora e tal lá apareceu o pai, ficamos lá ainda algum tempo antes de irmos para o nosso destino.
Ficamos amigos dessa senhora e família.
São acções e atitudes que nunca se esquecem.

Comparações entre passado e presente

A próxima foto foi tirada por mim em 2009 ao antigo cais do porto de Angra do Heroísmo actualmente integrado na marina.

Antigo cais do porto de Angra do Heroísmo actualmente integrado na marina.




“Sou ilhéu; e, tanto ou mais do que a ilha, o ilhéu define-se por um rodeio de mar por todos os lados. Vivemos de peixe, da hora da maré e a ver navios…”

[Livro "Corsário das Ilhas" de Vitorino Nemésio (1901-1978)]